segunda-feira, 15 de junho de 2015

Dos becos escuros

Clarisse,

Enquanto me perdi em versos, você passou a chave nas portas pela parte de dentro. Tentei chamar o teu nome, este que todos conhecem, e também os que eu te sussurrava no ouvido, e que só tu sabes. Porém, de nenhuma destas mulheres que existem - e que criamos - em ti, eu recebi uma resposta.
Aceitando estas negações, e este silêncio, como um convite a partida, eu o aceitei e tomei rumos sem aviso prévio. Caminhei por mundos nunca vistos, toquei com as mãos as superfícies das crostas, e com o meu corpo as costas de outros habitantes que porventura cruzassem meu caminho e me oferecessem a atenção, e a palavra, que você me negara enquanto eu me perdia em palavras.
Percorri os espaços mais belos, carreguei em minhas mãos as belezas do mundo. Recolhi cristais nos rios, e passando noites em claro, admirei quando lúcifer refletia sua luz em cada uma das pedras que estavam depositadas ao meu redor. Cada uma tinha uma cor, Clarisse. Consegui, naquele momento, te imaginar maravilhada com a diversidade de rochas que recolhi pelo caminho. Acredito que você nem se importaria com a origem delas, ou quais foram as maneiras que tive que recorrer para obtê-las. Você estaria ali, maravilhada, pelas luzes coloridas que tocariam teus olhos e te fariam dançar descalça sob o chão do deserto. E ainda assim, Clarisse, ali, nem todos os cristais em lúcifer brilhariam mais do que a luz que emana de ti.
Acompanhei o brilho das constelações que identificava, aqui e ali, enquanto caminhava. Seguia qualquer outra órbita para tentar não ser mais um satélite da tua saudade, Clarisse. Encontrava cantos para dormir, canos para tomar água, pernas para depositar a cabeça, e repousar em ventres quentes.
Os cheiros, Clarisse. Todos os cheiros invadiam minhas narinas, e me causavam experiências diversas e sensações únicas. Maneiras distintas de exaustão, asco, exaltação e pavor - todas fazendo parte desta botica, com seus frascos abertos e suas fumaças coloridas a me rodear. E todos eles, Clarisse, divergiam do seu e me aumentavam a falta de perder meu rosto afundado em teus cabelos.
Deitado, então, em qualquer uma das ruas abandonadas que encontro para descansar as pernas e aproveitar a vibração dos carros que passam pelo asfalto, recordo dos versos que compunha no dia em que você partiu para não mais voltar. Talvez, você tenha sentido ciúme das palavas que estavam no papel à minha frente, e do sorriso que estampava meu rosto à cada toque da caneta com o papel. Talvez, você não quisesse ouvir mais um dos meus poemas - pois eu os lia todos para você, Clarisse. Não importa o motivo, você se foi. E eu me pedi em versos. Me perdi no mundo, em corpos, cheiros, cristais e bocas-de-lobo. Me vi asteroide, Clarisse. E permaneço orbitando em tua galáxia.

Com suor e silêncio,

seu James Dean.

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