terça-feira, 1 de novembro de 2016

Perfeito

Para ler ouvindo: Fernanda Takai - Kobune



Ele era perfeito pra mim.
Era leve quando o tempo era nublado e não parava de trovejar na janela do meu quarto e a organização de pensamentos ficava turva como o céu. Me fazia refletir e repensar e encontrar um caminho que até então parecia perdido na penumbra.
Cantarolava comigo as mais belas canções, deitados nus na cama, com os dedos levemente entrelaçados, e os lábios semiabertos murmuravam "dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar no macio azul do mar".
Quando a alegria era tanta que parecia sobrar pelas extremidades e vazar pelos poros, me segurava pelas mãos e me rodopiava pela sala quarto cozinha, sem se preocupar em esbarrar nos móveis e nas paredes, tal qual um Fred Astaire desvairado que não sentia nenhuma dor ou desalento, apenas prazer e felicidade.
Me fazia acreditar que, apesar do espelho não refletir exatamente o que eu esperava ver, era possível ser amado independente da forma física que possuía, pois o que havia entre nós ultrapassava os limites carnais e se aprofundava numa ligação cósmica, energética, quase esotérica, de vidas passadas talvez, e que não precisava de nada além dos nossos olhares conectados e das trocas que fazíamos e continuaríamos fazendo por toda a eternidade.
Ensinou-me a abrir os olhos para cinema europeu, latino-americano, asiático, e outras coisas mais independentes, e dizia que enlatados não me fariam perceber o quão maravilhosa era a sétima arte. Me colocou para assistir Dente Canino, de Yorgos Lanthimos, e não soltava a minha mão enquanto eu ficava cada vez mais pasmo e surpreendido com a película grega.
Recitava poesias felizes, de célebres autores ou de composição própria, enquanto eu estava acordando, dizendo que se o dia não iniciasse repleto de belas imagens literárias, seria então um dia perdido.
Ele era, sabe. Perfeito pra mim. Até o dia que eu o deixei esvair-me pelos dedos. Fechei a porta da sala antes que ele pudesse entrar. Quando dei-me conta, e olhei para o lado de fora, ele já não mais estava lá.

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