terça-feira, 9 de maio de 2017

Pra fazer parte da mobília

A corda estava ali, pendendo do teto, já fazia alguns meses. Já havia se tornado uma peça decorativa do quarto, apesar de sua cor clara e seu aspecto quase mofado destoar absurdamente das peças de marfim, um pouco gastas, que constituíam o mobiliário do quarto.

terça-feira, 21 de março de 2017

Em Colo Paterno

Os passos no corredor ficam mais altos conforme ele se aproxima. Costuma ser sempre o mesmo horário, às 3 e pouco da manhã. Papai abre a porta do quarto e deita-se ao meu lado. No entanto, ele não era realmente meu pai. Este espaço, em meu documento, está em branco. Filiação apenas materna. Mas depois de algumas agressões de cinta e alguns dentes a menos na boca de mamãe, eu fui obrigado a chamá-lo assim.

segunda-feira, 6 de março de 2017

vai valer a pena

além de mim.
tento ver sempre além de mim. além do que eu percebo, de como me enxergo. de como o espelho me reflete. de como minha mente me reproduz e me consome. me consome todos os dias como uma besta faminta pronta para destruir tudo que enxergar pela frente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

je suis un gâchis

depois de tantas folhas arrancadas e atiradas sem força na lata de lixo velha, me dou conta. 
não sei mais escrever.
me faltam as palavras, as referências são vazias, os versos já não fazem mais sentido como antes. já não me tocam mais as palavras que desenho pavorosamente no papel. é pura verborragia.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Perfeito

Para ler ouvindo: Fernanda Takai - Kobune



Ele era perfeito pra mim.
Era leve quando o tempo era nublado e não parava de trovejar na janela do meu quarto e a organização de pensamentos ficava turva como o céu. Me fazia refletir e repensar e encontrar um caminho que até então parecia perdido na penumbra.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A Soleira

Quando olho para a porta aberta, me questiono se quem vai e não voltou na verdade nunca esteve, pequena. Se os dias eram armadilhas prontas para morder-me os calcanhares e mastigar-me as certezas. Certezas, afinal, quem as têm?