segunda-feira, 9 de abril de 2018

Coagulado

Todo o tempo de silêncio me deixou a boca seca. Os lábios tão cerrados que acreditei terem sido costurados pelas aranhas que passearam por cima de meu rosto durante todas essas incontáveis horas.
Reviver feridas é cruel e ao mesmo tempo revigorante. É como se, ao tatear os queloides espalhadas pelo meu corpo, estivesse lendo em braile cada pedaço de horror que me destruiu lentamente, e que, ao mesmo tempo me desenvolveu um escudo de pele morta que me ajudará a impedir o próximo ataque.
Me lembro das primeiras navalhas que tocaram minha inocente pele, com marcas de vergonha e repreensão, me silenciando pela primeira vez dentro do que era considerado errado. O erro faz parte de mim como um gêmeo siamês, e as minhas verdades são ofuscadas pelos filtros alheios desde então.
Sinto ainda hoje queimar todas as fagulhas de ódio e de descrença as quais eu fui exposto. Fogueira acesa por mim. Fogueira acesa por outros.
Recordo com clareza da origem das cicatrizes no rosto. As unhas arranhando minhas bochechas, os socos desferidos no nariz. Conforme desço pelo meu corpo, sinto novamente as mãos sufocando meu pescoço e o cheiro de sangue podre que escorria da boca que esbravejava tudo aquilo que eu nunca mais quero voltar a ouvir. Como uma música ruim cantada muito alto diariamente ao pé do meu ouvido.
Contudo, apesar das marcas profundas que você vê, hoje, espalhadas pelo meu corpo, posso te garantir que a cicatriz que mais dói é ainda sentir a mão que forçou minhas verdades garganta à dentro e calou à força os sentimentos do meu coração.
Rasgando as teias e puxando com força o ar, te trago uma única verdade: hoje não, hoje ninguém vai me calar.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Pra fazer parte da mobília

A corda estava ali, pendendo do teto, já fazia alguns meses. Já havia se tornado uma peça decorativa do quarto, apesar de sua cor clara e seu aspecto quase mofado destoar absurdamente das peças de marfim, um pouco gastas, que constituíam o mobiliário do quarto.

terça-feira, 21 de março de 2017

Em Colo Paterno

Os passos no corredor ficam mais altos conforme ele se aproxima. Costuma ser sempre o mesmo horário, às 3 e pouco da manhã. Papai abre a porta do quarto e deita-se ao meu lado. No entanto, ele não era realmente meu pai. Este espaço, em meu documento, está em branco. Filiação apenas materna. Mas depois de algumas agressões de cinta e alguns dentes a menos na boca de mamãe, eu fui obrigado a chamá-lo assim.

segunda-feira, 6 de março de 2017

vai valer a pena

além de mim.
tento ver sempre além de mim. além do que eu percebo, de como me enxergo. de como o espelho me reflete. de como minha mente me reproduz e me consome. me consome todos os dias como uma besta faminta pronta para destruir tudo que enxergar pela frente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

je suis un gâchis

depois de tantas folhas arrancadas e atiradas sem força na lata de lixo velha, me dou conta. 
não sei mais escrever.
me faltam as palavras, as referências são vazias, os versos já não fazem mais sentido como antes. já não me tocam mais as palavras que desenho pavorosamente no papel. é pura verborragia.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Perfeito

Para ler ouvindo: Fernanda Takai - Kobune



Ele era perfeito pra mim.
Era leve quando o tempo era nublado e não parava de trovejar na janela do meu quarto e a organização de pensamentos ficava turva como o céu. Me fazia refletir e repensar e encontrar um caminho que até então parecia perdido na penumbra.